Artista da minha própria história


É de pequena que vem o gosto de Isabella pela arte.


Nascida em São Paulo, quando ainda era um bebê, sua mãe descobriu que ela tinha miopia e astigmatismo. Não era um probleminha de vista qualquer. Eram treze graus em um olho e sete e meio no outro. Aos dois anos, pela primeira vez, ela viu o mundo como realmente ele era e talvez esse início de vida diferente, tenha sido um grande estímulo à sua imaginação.



A infância vivida entre diferentes cidades do Brasil, partilhada com seus dois irmãos Clarissa e Gabriel, foi temperada com um bocado de resiliência. Aos 4 anos, seus pais se separaram e como todas as separações, não foi lá muito fácil. Para ver o pai, só com ponte aérea. Aos 8 anos, Isabella sofreu um atropelamento que lhe causou uma fratura exposta da tíbia, uns meses de repouso e outros tantos com a mobilidade reduzida. Sapeca que era, não deixou de fazer muita coisa, pois sempre lhe vinham idéias diferentes sobre como viver com alegria, mesmo diante das adversidades que a vida lhe impunha.


A escrita e a leitura sempre lhe foram refúgio. Vivia entre cartinhas coloridas, agendas e diários, dobraduras, miçangas e recortes. Uma de suas brincadeiras preferidas, acontecia antes da hora de dormir quando repousava os óculos na mesa de cabeceira. Da janela de seu quarto olhava para o céu e as luzes da cidade desfocadas junto das estrelas podiam então ser tudo o que a sua criatividade quisesse que fossem. Quando adormecia, no entanto, era de costume que fosse tomada pelo medo. Para a cama de seu irmão mais novo, com quem dividia o quarto e a vida, ela pulava e lhe apertava as mãos bem forte, na agonia de que o dia amanhecesse bem.


Foi mais ou menos nessa época que Isabella teve um dos seus primeiros contatos com a arte de uma forma mais sistemática. Uma vizinha de prédio, dava aulas de pintura à óleo, e ali... Isabella tinha novamente sua paz. Sentia-se cheia de si, ao lado das tintas, do cavalete e de todas aquelas senhoras da vizinhança.


Na Adolescência, já de lentes de contato, viveu grandes e inesquecíveis amores.


Ela era dessas que se apaixonava com a maior das facilidades e por um monte de gente ao mesmo tempo. Na verdade-verdadeira, ela sempre fora mesmo era apaixonada por gente e sabia bem que cada pessoa escondia dentro de si segredos e tesouros preciosos.


Tinha uma turma descolada de amigos de diferentes espaços. Tinha os amigos da escola, os do skate, os amigos dos amigos, tinha os que conheceu no teatro, os da vizinhança, os amigos virtuais que se tornaram reais e os que ela trocava carta pelos Correios.


A poesia, a música e o teatro tornaram-se parte da sua rotina diária.


Era uma tal mistura de discos de vinil de bossa-nova com cd’s de rock’n roll, visitas à galerias de rock e exposições de arte, Vinícius de Moraes e Pablo Neruda, shows no Teatro Garagem e apresentações de no Dulcina que dava gosto de ver. Esse universo eclético sempre cheio de cores lhe enfeitavam da cabeça aos pés e os coordenadores da escola tinham dificuldades em fazê-la não customizar o uniforme.


Liberdade, sensibilidade, ousadia e muito bom-humor eram alguns valores que iam ali junto de um grande interesse pelo universo místico, moldando sua personalidade.


Na época do vestibular era de tanta coisa que essa menina gostava que chegou a fazer provas para Jornalismo, Letras e Artes Cênicas (até passou, mas não cursou!), fez alguns semestres de Relações Internacionais e acabou mesmo concluindo o curso de Serviço Social.


Essa era uma época em que a maior das suas Artes foi pintar sua Liberdade em plenitude – tendo morado uns meses na Inglaterra e viajado de mochilão a alguns outros países.


No retorno, encontrou-se com a sua própria sombra. Era difícil pra caramba se encaixar na vida de gente-grande, caber dentro de uma caixinha e coisa e tal. Foi nesse momento, por achar que não era mais capaz de decorar textos, nem de produzir arte que ela abandonou os palcos e refugiou-se na vida acadêmica passando então a estudar Marx e lutar pela garantia de direitos sociais.


Ela não percebia bem, que aquele ali, era só um novo cenário, do palco da sua história. A vida ficou meio sem cor, por um tempo... .


Uma série de superações lhe foram necessárias. Com uma força sobrenatural (ou espiritual!) e bom humor (novamente!), elas foram sendo uma a uma, encaradas. E com ela, era olho no olho.


Desamores, separações, problemas familiares, doenças na família... Isabella fitava os olhos de coração escancarado cada um dos degraus que lhe apareciam.


Foi quando perdeu um dos seus grandes amores. Gabriel, seu irmão mais novo, foi assassinado aos vinte anos. Não havia mais a cama ao lado, para onde pular, quando sentisse medo. Não haviam mais seus cachinhos dourados, nem seu abraço de urso, nem seu enorme coração generoso.


Foram tempos de grandes mergulhos, de apatia e de uma busca por sentido na vida que às vezes parecia que não ia dar em lugar algum.


Foi morar com sua mais nova paixão, aos 19 anos. Niklas era de longe... Vinha lá da Suécia. Foi ver a primavera e viver de amor por alguns meses em terras nórdicas para depois despedir-se e passar meses longe de quem vinha ali, aquecendo seu coração... Era preciso se formar: dizia seu pai e também a sua razão! Entre novas idas e vindas: Brasil, Argentina e Suécia – finalizou sua graduação em Serviço Social na Universidade de Brasília e logo foi mãe, aos 24, de seu primeiro filho, Francisco.


São Francisco de Assis era o santinho protetor do seu irmão, que quando teve sua vida arrancada pela violência, estudava medicina veterinária.


Com a maternidade, um novo mundo repleto de vida e tons, lhe foi preenchendo vazios. Voltou a desenhar e rabiscar, vieram também alguns trabalhos manuais e um reencontro com o universo do lúdico e das cores. As coisas já não eram mais tão cinzas.


De volta ao Brasil, tornou-se funcionária pública e ativista. Ser ativista naquele momento não era uma questão de escolha. Era preciso lutar para que outros meninos não se fossem tão cedo assim. Foi parar no atendimento à adolescentes em conflito com a lei e depois, em um hospital público da Secretaria de Saúde do Distrito Federal – aonde passou a atender vítimas de violência sexual e intrafamiliar. O contato diário com outras histórias difíceis, carregadas por crianças e adolescentes, mulheres, idosos e famílias iam enchendo seu coração de uma grande força, mas também de uma dor que precisava escapar por algum lugar que ela não sabia bem onde.


Cinco anos depois da passagem de seu irmão, foi a vez do seu pai, Sílvio. Ele faleceu de um câncer causado pela tristeza que foi tomando conta, gradualmente, de seus ossos, pulmões e demais células do seu corpo.


O tempo ia passando de cá e de lá e Isabella rebolava na vida. Foi preciso aprender a conviver com a dor de sua mãe que hora era mar de lágrimas, outras trovoadas de dor, outras buscava no carinho com os netos a força necessária para continuar. Poucos anos depois, foram-se também os avós.


Isabella tinha uma enorme paixão pelo seu avô Alceu. Ele um dia lhe deu rosas vermelhas as quais ela cuidou com apreço, plantou pés de alface em volta, mas que mesmo diante do cuidado, morreram.


Com a metáfora das rosas do vovô Alceu, aprendeu que não havia caminho sem espinhos e foi se erguendo de cada queda, buscando ar após cada novo mergulho na escuridão que a vida lhe convidava a fazer.


As cores, a poesia, a música e Arte, entre textos escritos e recortes, iam lhe salvando junto com tudo que lhe acontecia, de si mesma.

Quando seu filho mais novo, Benjamin, nasceu, Isabella resolveu dar eco àquela voz que vinha do seu coração.


A vida estava passando e não havia mais tempo a perder.


Seu coração não chamava: - GRITAVA!


Era preciso reencontrar-se consigo mesma. Era hora de reconectar-se com a espiritualidade. E ouvindo seu chamado, Isabella foi fazer uma pós-graduação em Arteterapia de Abordagem Junguiana.


O contato com Jung já fazia parte da sua história pois há alguns anos sentava-se semanalmente com sua terapeuta e guru, adepta da abordagem clínica junguiana.


Era o ano de 2016 e Isabella foi se preenchendo com aquela infinitude de possibilidades de curar aos outros mas principalmente, de curar a si mesma, por meio da Arte. Foi um processo catártico e bastante profundo que resultou em muita cura. Depois de parir dois meninos, ela tinha passado a parir coisas pela cabeça. Ela paria a si mesma.


(...)


Eu pari a mim mesma. Renasci. Reencontrei-me com a minha essência e a arte então foi tomando conta dos diferentes espaços que ocupei. Concluí a pós-graduação. Levei a arte para o meu fazer profissional no hospital. Passei a registrar meus poemas e dos registros dois cadernos de poesia preenchidos nasceram também. Esse desaguar, foi então transbordando de tal forma que as pessoas que viam o que estava me acontecendo, começaram a entrar em contato, querendo saber o que é que vinha acontecendo comigo porque meus olhos e minha pele estavam diferentes.


Agradeço a cada uma delas!


Agradeço cada elogio sobre o meu sorriso estar mais leve.


E eu, para falar a verdade, também não sabia muito bem o que me acontecia mas sabia que tinha algo que não cabia mais somente em mim e que precisava ocupar novos espaços.


Estudei um pouco de aquarela, pratiquei bastante desenho, me aproximei da técnica de lettering, mas foi intuitivamente mesmo que a minha expressão artística foi se consolidando.


Ela foi fiel ao meu processo de descoberta do auto-amor , da cura e da auto-realização.


Ela veio apontando caminhos e novas formas de acesso à espiritualidade habitante de mim.


Sem que eu previsse ou me organizasse, de forma um tanto quanto despretensiosa, nascia ali uma menina: a “Eu te dou a minha Paz”. Ela nascia porque essa história toda de força e superação precisava transbordar.


E eu ganhava por fim, mais um título: o de artista da minha própria história.



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