Braveza - #todasegundatempoesia

Atualizado: 29 de Ago de 2018





O versinho é meu, mas a fala foi de um menino de oito anos. Cabelos negros e cacheados.


Ele havia chegado no consultório do local aonde eu trabalhava - um serviço de atendimento às vítimas de violência em um hospital público de uma comunidade nos arredores de Brasília - tímido à beça.


Eu não me esqueço da doçura daquele menino.


Ele tinha um pai igualmente doce e presente. Uma mãe cabreira, sossegada, introspectiva.


E na vidinha daquele menino havia acontecido uma situação de violência sexual.


Ao contrário do que pensam, os pais eram muito protetivos. O pai, principalmente.


A mãe, na época se encarregava dos cuidados da irmãzinha mais nova, também de cabelos pretinhos e cacheados. Bochechas grandes.


Achei de uma riqueza sem fim a descrição desse menino sobre esse sentimento que nos invade tantas vezes. Ele tinha razão - toda a razão do mundo - para sentir o que sentia! Sempre temos razão para sentir o que sentimos. Penso nos sentimentos como sinais de auto-cuidado e auto-proteção. Eles sempre querem nos dizer algo. Principalmente, os não tão agradáveis de sentir.


Ele chegou lá no serviço e foi acolhido e recebido com muito carinho por mim e pela psicóloga do serviço. Teve consultas em pediatria. Teve encontros com outras crianças com vivências parecidas. Foi inserido em uma rede de proteção na sua comunidade, ainda maior.


E espaços para a resiliência foram criados.


Ele adorava desenhar. Ele aprendeu a falar sobre os sentimentos que tinha. Encontrou canais que o auxiliaram a colocar pra fora o que sentia.


Em situações de abuso e trauma: medo, raiva, culpa, tristeza, vergonha e nojo são sentimentos extremamente frequentes.


Quando lembro daquele menino e do trabalho que fazíamos ali naquele espaço insalubre mas cheio de amor, penso no quanto a arte é um canal maravilhoso para o ressignificar de tais vivências.


Naquele consultório, enquanto trabalhamos ali, a gente acreditava que era possível transformar vidas por meio do acolhimento, da escuta.


Eles ressignificavam suas vivências mas a gente é que tinha os maiores aprendizados da vida.


Olha o aprendizado que esse menino me trouxe! E que agora está levando até você...


Com sorriso, abraço e falas poéticas como essa, ele ia aprendendo a se curar. Transformando o trauma vivido em expressividade e auto-transformação.


A arte cuida, cura e salva.


Esse post é dedicado à minha amiga Ana Carolina. Com quem partilhei momentos de angústia e crescimento. Já não estamos mais lá. Mas os espaços que criamos ali, amiga, ficarão guardados na vida dessas crianças e famílias para sempre.


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