Hoje eu acordei, e saí... Um texto sobre corridas e feminismo.

Acordei. Ajeitei junto com Niklas as crianças para irem à escola. E decidi, que como não teria que ir trabalhar no hospital: era dia de fazer algo diferente. Não sei se pela proximidade com experiências que me colocaram frente a frente com a morte, mas desde cedo sinto esse desejo pulsar dentro de mim. O desejo de viver tudo que a vida pode me oferecer.

Algumas vezes, esse desejo já me colocou frente à enrascadas: situações em que precisei lidar com as consequências não tão agradáveis dos meus atos, situações que me geraram angústia e ansiedade. Algumas vezes porque cheguei a fazer e outras também porque não fiz e fiquei pensando em como seria se tivesse feito... Sabem como é, né? Falar nisso, me lembra meu pai que sempre que eu saía de casa, me dizia: - Juízo, hein?


Acho que ele tava certo. Sou dessas que precisa ser lembrada sobre a importância da razão. E eu juro que estou aprendendo a gostar da tranquilidade que ela pode trazer. Tanto, que já faz algum tempo que decidi cuidar mais do meu corpo - para além da mente, que já venho cuidando há algum tempo. Venho desde o começo do ano me preparando para esse momento: o dia que eu reuniria minha coragem, um bocado de água, meu telefone para casos de emergência e música e sairia para correr.

Arte produzida em aquarela e lettering. Feita especialmente para a Tati usar no seu niver de 40 anos.

- Vou sair para correr! E vou correr 5 km!

(...)

Planejei meu percurso. Iria passar ali pela Barragem do Paranoá e voltaria. Daria exatamente uns 5 KM, me encontraria com o Lago Paranoá e com o lugar preferido aonde meu pai gostava de estacionar a lancha, quando saíamos para passear nos finais de semana.


Quando saí, peito cheio de mim mesma, o ar que batia no meu rosto me trazia uma das sensações que mais adoro sentir na vida: um misto de superação e plenitude. Mais uma barreira se quebrava para mim e eu estava ali, fazendo algo novo - uma vez mais. Logo percebi a diferença que é correr na esteira e correr na rua. Eu não conhecia ainda tão bem meu corpo, não conseguia encontrar o ritmo que me permitisse correr com conforto. Logo me faltou um pouco de ar e precisei frear. O sol batia no meu rosto, a música doce tocava nos meus ouvidos, meu coração batia forte e várias imagens mentais iam passando. Corri e andei. Andei muito mais do que corri. Cruzei com vários trabalhadores que fazem esse percurso todos os dias, para vir trabalhar nos condomínios aqui do Lago Sul. Dei bom dia a todos: a maioria mulheres. Dei bom dia ao lixeiro, que sozinho limpava a sujeira que gente sem noção deixava pelo caminho. Ganhei sorrisos de volta. Minhas pernas moviam-se firmes, certas de que alcançaria o meu objetivo. Não do jeito que imaginei, claro. Minha expectativa mesmo era de correr 5 km, como já vinha fazendo na academia. Não imaginei que seria tão diferente... Tem partes que a via é de terra, tem pedras (muitas pedras) no caminho. Tem a falta de ar. A sede. O sol. Tem o trânsito veloz logo ao lado. É tudo diferente. Pensei comigo: - É cada expectativa que a gente cria!


Estar sozinha, caminhando com as minhas próprias pernas, vê-las firmes rumo a superação de mais um desafio, me trouxe mais uma vez aquele sentimento de: - Isabella, você pode ser tudo o que quiser. No parto dos meus dois filhos, esse sentimento me inundou. Lembrei dos meus dois partos. Vi a força que tem dentro de mim, escancarada na minha frente - novamente.


É só querer, entregar-se, dedicar-se e no seu próprio ritmo, você chega aonde quer chegar. Meu ritmo, ainda não é de maratonista. Sou caminhante. Na altura da Barragem, no entanto, comecei a descer e quando vi, já estava correndo. Uma ladeira daquelas. Meus olhares se cruzaram com os olhares de ciclistas que, na direção oposta, estavam a superar seus próprios limites, entre caretas e expirações profundas. Me permiti fluir... Ali era quase como voar. Passarinha que sou, me entreguei e quando vi, já estava ali de frente para o Lago Paranoá. Eram 08:40hs da manhã e eu havia saído de casa às 08:05hs. Quando penso que tudo está bem, me vem à emoção de encontrar-me com o lugar preferido do meu pai: a Barragem. Em seguida: me vem o medo.


Nem tudo são flores.


No percurso, fui assediada várias vezes.

Eu não consigo entender, o que se passa na cabeça dos homens que se propõem a buzinar para as mulheres na rua. A idéia é gerar medo? Existe prazer em intimidar? Em buzinar, passar o carro raspando em você e seguir?

Da primeira buzinada até onde segui contando, foram mais de 10x.

Eu olhava para os lados: de um lado, o Lago Paranoá. De outro, mata.

E a realidade era que as minhas pernas ainda não eram fortes o suficiente para correr de um suposto agressor, caso sentisse essa necessidade.

Veja bem: eu não sou nenhuma musa fitness, não tenho um corpo sarado e mesmo se tivesse... Vestia calça e camiseta, uma mochila e o meu telefone preso no braço. Não gosto de me exercitar de calça, mas também não tive coragem de ir de short.

O medo de ser estuprada passou várias vezes pela minha cabeça.


Fiquei pensando nas mulheres trabalhadoras que todos os dias precisam pegar ônibus e caminhar um bocado para chegar ao seu local de trabalho. Fiquei pensando nas meninas, que querem brincar na rua e se colocam diariamente em risco. Fiquei pensando em todas as mulheres da minha linhagem e em quantos estupros não acontecem nesse país machista todos os dias. Fiquei pensando na "homaiada" que em mesa de bar, diz que "ela estava provocando, afinal, caminhava sozinha de calça legging. Ela estava de certo, se oferecendo, né não?" - Não!


Fiquei pensando na objetificação que vivemos e na coragem que temos que ter, a cada dia, para botar a cara na rua e superar nossos desafios. Que mistura de sentimentos, duas horas caminhando (corri um cadinho também, vamos lá...) sozinha, me trouxeram.


Foi intenso. Assim como é intensa nossa luta! Subi a ladeira de volta, dei bom dia à mais mulheres no caminho. Ganhei mais sorrisos de volta. E vi que havia acabado de ter uma grande lição sobre: superação, coragem, empatia e sororidade.

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