• Isabella Stephan

Hoje eu acordei, e saí... Um texto sobre corridas e feminismo.

Acordei. Ajeitei junto com Niklas as crianças para irem à escola. E decidi, que como não teria que ir trabalhar no hospital: era dia de fazer algo diferente. Não sei se pela proximidade com experiências que me colocaram frente a frente com a morte, mas desde cedo sinto esse desejo pulsar dentro de mim. O desejo de viver tudo que a vida pode me oferecer.

Algumas vezes, esse desejo já me colocou frente à enrascadas: situações em que precisei lidar com as consequências não tão agradáveis dos meus atos, situações que me geraram angústia e ansiedade. Algumas vezes porque cheguei a fazer e outras também porque não fiz e fiquei pensando em como seria se tivesse feito... Sabem como é, né? Falar nisso, me lembra meu pai que sempre que eu saía de casa, me dizia: - Juízo, hein?


Acho que ele tava certo. Sou dessas que precisa ser lembrada sobre a importância da razão. E eu juro que estou aprendendo a gostar da tranquilidade que ela pode trazer. Tanto, que já faz algum tempo que decidi cuidar mais do meu corpo - para além da mente, que já venho cuidando há algum tempo. Venho desde o começo do ano me preparando para esse momento: o dia que eu reuniria minha coragem, um bocado de água, meu telefone para casos de emergência e música e sairia para correr.

Arte produzida em aquarela e lettering. Feita especialmente para a Tati usar no seu niver de 40 anos.

- Vou sair para correr! E vou correr 5 km!

(...)

Planejei meu percurso. Iria passar ali pela Barragem do Paranoá e voltaria. Daria exatamente uns 5 KM, me encontraria com o Lago Paranoá e com o lugar preferido aonde meu pai gostava de estacionar a lancha, quando saíamos para passear nos finais de semana.


Quando saí, peito cheio de mim mesma, o ar que batia no meu rosto me trazia uma das sensações que mais adoro sentir na vida: um misto de superação e plenitude. Mais uma barreira se quebrava para mim e eu estava ali, fazendo algo novo - uma vez mais. Logo percebi a diferença que é correr na esteira e correr na rua. Eu não conhecia ainda tão bem meu corpo, não conseguia encontrar o ritmo que me permitisse correr com conforto. Logo me faltou um pouco de ar e precisei frear. O sol batia no meu rosto, a música doce tocava nos meus ouvidos, meu coração batia forte e várias imagens mentais iam passando. Corri e andei. Andei muito mais do que corri. Cruzei com vários trabalhadores que fazem esse percurso todos os dias, para vir trabalhar nos condomínios aqui do Lago Sul. Dei bom dia a todos: a maioria mulheres. Dei bom dia ao lixeiro, que sozinho limpava a sujeira que gente sem noção deixava pelo caminho. Ganhei sorrisos de volta. Minhas pernas moviam-se firmes, certas de que alcançaria o meu objetivo. Não do jeito que imaginei, claro. Minha expectativa mesmo era de correr 5 km, como já vinha fazendo na academia. Não imaginei que seria tão diferente... Tem partes que a via é de terra, tem pedras (muitas pedras) no caminho. Tem a falta de ar. A sede. O sol. Tem o trânsito veloz logo ao lado. É tudo diferente. Pensei comigo: - É cada expectativa que a gente cria!


Estar sozinha, caminhando com as minhas próprias pernas, vê-las firmes rumo a superação de mais um desafio, me trouxe mais uma vez aquele sentimento de: - Isabella, você pode ser tudo o que quiser. No parto dos meus dois filhos, esse sentimento me inundou. Lembrei dos meus dois partos. Vi a força que tem dentro de mim, escancarada na minha frente - novamente.


É só querer, entregar-se, dedicar-se e no seu próprio ritmo, você chega aonde quer chegar. Meu ritmo, ainda não é de maratonista. Sou caminhante. Na altura da Barragem, no entanto, comecei a descer e quando vi, já estava correndo. Uma ladeira daquelas. Meus olhares se cruzaram com os olhares de ciclistas que, na direção oposta, estavam a superar seus próprios limites, entre caretas e expirações profundas. Me permiti fluir... Ali era quase como voar. Passarinha que sou, me entreguei e quando vi, já estava ali de frente para o Lago Paranoá. Eram 08:40hs da manhã e eu havia saído de casa às 08:05hs. Quando penso que tudo está bem, me vem à emoção de encontrar-me com o lugar preferido do meu pai: a Barragem. Em seguida: me vem o medo.


Nem tudo são flores.


No percurso, fui assediada várias vezes.

Eu não consigo entender, o que se passa na cabeça dos homens que se propõem a buzinar para as mulheres na rua. A idéia é gerar medo? Existe prazer em intimidar? Em buzinar, passar o carro raspando em você e seguir?

Da primeira buzinada até