• Isabella Stephan

Um #todasegundatempoesia sobre perdas.

Atualizado: 21 de Jun de 2018

Está difícil ter fôlego para produzir tanto nos últimos tempos. A sensação que eu tenho é que as cobranças que a sociedade trás nesse rolê de produtividade+produtividade+produtividade são tantas e incompatíveis com o meu modo de funcionamento interno. Eu não sei se outras pessoas também se sentem assim, mas eu acho que meu ritmo interno é muito mais lento.


Eu gosto de fazer as coisas saboreando-as. Mas parece que não é isso que a humanidade anda existindo, certo?


A vida vai passa e a gente corre pra lá e pra cá, sendo literalmente empurrados à viver. Dá pra curtir um passo dado aqui. Outro ali.


Mas sigo achando que a gente nunca consegue curtir com a devida atenção o que cada um desses momentos em meio aos corre-corres nos oferece. Parece que sempre fica algo pra trás.


Aí vem a morte - no meio da Vida e nos atravessa.


E quando uma perda acontece, não dá para não se afetar.


Perdemos um emprego, perdemos a esperança no prosseguir de um projeto, perdemos vôos, chaves, perdemos alguém que amamos, perdemos algo que nos é importante. E o instante que era, poft!, não é mais o mesmo instante de agora.


Somos devorados pelos instantes.


E quando a morte de alguém ou de algo que nos é importante acontece, somos obrigados a parar, refletir e dar início à uma nova faxina interna (e externa).


A morte sempre me trouxe a necessidade do renascimento.


E para renascer, é preciso viver o luto de algo que se foi, que já não existe mais.




Estou super chorosa. A nossa Nina, se foi... Acho que é uma mistura de raiva, tristeza, indignação e dificuldades para lidar com a perda, de deixar ir mesmo. A Nina foi uma cachorrinha que adotamos há cerca de 11 meses atrás.


Ela veio um mês após a perda da nossa outra cachorrinha: a Lilla - que viveu 11 anos. A Lilla tinha mania de fuçar lixo. Quando podia, escapava e ia direto fuçar lixo. Ela morreu assim. Aonde moro, tem uns restaurantes por perto. E ainda tem gente que coloca chumbinho em lugares acessíveis também para outros bichos, no intuito de matar ratos. Entendo que ratos e restaurantes não combinam, mas não custa nada escolher um local apropriado para colocá-los. Um local não acessível para outros bichos. A Lilla fugiu, fuçou lixo e voltou passando muito mal. Levei para o hospital veterinário, mas com a idade avançada que tinha, não resistiu à terceira parada cardiorespiratória. A Lilla foi uma cachorra muito especial. Ela viajou com a gente pelo mundo. Conheceu o Brasil. Morou em três países. Viu meu filho mais velho nascer. Adoeceu no meu pós-parto, quando eu adoeci também. Amamos muito a nossa Lilla e quando ela morreu, a cremamos. Nunca fizemos o que dissemos que íamos fazer com as cinzas dela. Ela ficou por mais de ano na nossa cabeceira da cama, vez ou outra eu rezava para ela. Essa aí debaixo era a Lilla.

A Lilla foi o nosso xodó, a primeira baby que eu Niklas tivemos juntos. Ela me ensinou muito sobre cuidado. Pois bem. Lilla se foi, sofremos um bocado. E um mês depois entendi que não havia nascido para ser uma pessoa sem cães. Minha casa sentia falta de patinhas sujas de terra pisando no chão que tinha acabado de ser limpo. Sentia falta de rabinhos abanando na hora que chegávamos do trabalho. E as crianças precisavam ter alguém com quem jogar bolinha, fazer carinho e aprontar. Foi então que soubemos da Nina. A Nina veio pela adoção. Era uma cachorrinha da Gy, dona de um abrigo de cães aqui de Brasília. Ela tinha resgatado a Ninoca desnutrida e cuidado até que se fortalecesse. Ela então se fortaleceu e nós a adotamos.