Um #todasegundatempoesia sobre perdas.

Atualizado: 21 de Jun de 2018

Está difícil ter fôlego para produzir tanto nos últimos tempos. A sensação que eu tenho é que as cobranças que a sociedade trás nesse rolê de produtividade+produtividade+produtividade são tantas e incompatíveis com o meu modo de funcionamento interno. Eu não sei se outras pessoas também se sentem assim, mas eu acho que meu ritmo interno é muito mais lento.


Eu gosto de fazer as coisas saboreando-as. Mas parece que não é isso que a humanidade anda existindo, certo?


A vida vai passa e a gente corre pra lá e pra cá, sendo literalmente empurrados à viver. Dá pra curtir um passo dado aqui. Outro ali.


Mas sigo achando que a gente nunca consegue curtir com a devida atenção o que cada um desses momentos em meio aos corre-corres nos oferece. Parece que sempre fica algo pra trás.


Aí vem a morte - no meio da Vida e nos atravessa.


E quando uma perda acontece, não dá para não se afetar.


Perdemos um emprego, perdemos a esperança no prosseguir de um projeto, perdemos vôos, chaves, perdemos alguém que amamos, perdemos algo que nos é importante. E o instante que era, poft!, não é mais o mesmo instante de agora.


Somos devorados pelos instantes.


E quando a morte de alguém ou de algo que nos é importante acontece, somos obrigados a parar, refletir e dar início à uma nova faxina interna (e externa).


A morte sempre me trouxe a necessidade do renascimento.


E para renascer, é preciso viver o luto de algo que se foi, que já não existe mais.




Estou super chorosa. A nossa Nina, se foi... Acho que é uma mistura de raiva, tristeza, indignação e dificuldades para lidar com a perda, de deixar ir mesmo. A Nina foi uma cachorrinha que adotamos há cerca de 11 meses atrás.


Ela veio um mês após a perda da nossa outra cachorrinha: a Lilla - que viveu 11 anos. A Lilla tinha mania de fuçar lixo. Quando podia, escapava e ia direto fuçar lixo. Ela morreu assim. Aonde moro, tem uns restaurantes por perto. E ainda tem gente que coloca chumbinho em lugares acessíveis também para outros bichos, no intuito de matar ratos. Entendo que ratos e restaurantes não combinam, mas não custa nada escolher um local apropriado para colocá-los. Um local não acessível para outros bichos. A Lilla fugiu, fuçou lixo e voltou passando muito mal. Levei para o hospital veterinário, mas com a idade avançada que tinha, não resistiu à terceira parada cardiorespiratória. A Lilla foi uma cachorra muito especial. Ela viajou com a gente pelo mundo. Conheceu o Brasil. Morou em três países. Viu meu filho mais velho nascer. Adoeceu no meu pós-parto, quando eu adoeci também. Amamos muito a nossa Lilla e quando ela morreu, a cremamos. Nunca fizemos o que dissemos que íamos fazer com as cinzas dela. Ela ficou por mais de ano na nossa cabeceira da cama, vez ou outra eu rezava para ela. Essa aí debaixo era a Lilla.

A Lilla foi o nosso xodó, a primeira baby que eu Niklas tivemos juntos. Ela me ensinou muito sobre cuidado. Pois bem. Lilla se foi, sofremos um bocado. E um mês depois entendi que não havia nascido para ser uma pessoa sem cães. Minha casa sentia falta de patinhas sujas de terra pisando no chão que tinha acabado de ser limpo. Sentia falta de rabinhos abanando na hora que chegávamos do trabalho. E as crianças precisavam ter alguém com quem jogar bolinha, fazer carinho e aprontar. Foi então que soubemos da Nina. A Nina veio pela adoção. Era uma cachorrinha da Gy, dona de um abrigo de cães aqui de Brasília. Ela tinha resgatado a Ninoca desnutrida e cuidado até que se fortalecesse. Ela então se fortaleceu e nós a adotamos.

Ela encheu nossa casa novamente de amor. Nina era impossível. Dizíamos às vezes que ela parecia gato. Ela enchia nossa literalmente com a sua energia. Docinho que era, ela adorava um colo, um chamego, mas tinha alma de vira-latinha mesmo. Ela era fujona. Quando ela fugia, ela ia para a casa da minha irmã que fica duas ruas abaixo. Passava o dia se deixasse brincando com a Lolla. Mas ela também gostava do perigo. Gostava de fugir e passar a barreira do condomínio. Acompanhava o piscineiro até a parada de ônibus. Ou ficava correndo pelo condomínio atrás das motos e dos carros. Ela era muito pequena. Pesava três quilos. Passava em qualquer brecha. E era capaz de saltar uma altura incrível. Havíamos investido uma boa grana construindo quase um "forte"para impedir suas fugas, mas ela sempre dava um jeito. E não tinha jeito, porque ela só voltava quando queria. Ela corria muito e era super complicado pegá-la. Ela era FREE SPIRIT e veio ensinar para gente que era preciso permitir que cada um fosse, o que quisesse ser. Por onze meses, oferecemos ração de excelente qualidade, dava banhos, cuidava com muito carinho, ela teve uma cama quentinha e muitas vezes dormia nos nossos pés. Daí ontem, ela fugiu, numa escapada que demos ao abrir o portão. Ficou brincando próximo ao parquinho, dentro do condomínio, aonde meu filho jogava futebol por perto. Nessa mania de correr atrás dos carros e motos, pegaram ela. Ela foi atropelada. Bateu a cabeça na hora e morreu. Preciso escrever que é pra ver se um cadinho dessa dor vai embora. Eu que sempre agi com muita tranquilidade diante da morte, dessa vez não consegui me manter serena. Saí completamente do eixo. Chorei muito, gritei muito, briguei muito, passei horas com ela no colo, chorando... Dei banho aonde ela estava ferida. Niklas cavou e eu e as crianças fizemos um jardim de amor para ela. Essa aí embaixo era a nossa Ninoca.




Daí depois de muita revolta, indignação, tristeza... Eis que no dia seguinte meu marido, Niklas, sai para correr às 05:30hs da madrugada. Niklas corre maratonas. Ele saiu aqui de casa e correu 10 KM até a Ponte JK - um dos maiores monumentos aqui de Brasília que faz a ligação do Plano Piloto com o Lago Sul. Ao chegar lá, ele conta que literalmente "do nada" uma cachorrinha começou a segui-lo. Ele fez a volta na ponte, atravessou várias ruas e a cachorrinha continuava o seguindo. E quando Niklas chega em casa, eis que ela simplesmente entra. Ele olha para mim e pergunta: - E agora? O que eu faço? Eu só pedi que a colocasse para dentro. Demos água, comida e seguimos com a nossa programação do dia. Íamos até o abrigo da Gy, conhecer o trabalho que ela faz com cães abrigados. São mais de 160 cães abandonados e resgatados. Ela cuida, dá um lar amoroso, com água, comida e cama quentinha, além de cuidados de saúde quando se faz necessário. Fica em uma chácara um pouco afastada do centro de Brasília em que ela mora sozinha e com a ajuda de um funcionário cuida com muito amor dessa galera toda. Gy tem um problema de saúde no quadril que tem lhe acarretado dificuldades de locomoção, mas ainda assim se dedica à esse projeto maravilhoso com tanta dedicação.

Aqui em casa sou devota de São Francisco de Assis - protetor das crianças e dos animais. Há tempos a ilustra que fiz dele, é uma das mais vendidas... E honestamente, não tenho dúvidas que essa cachorrinha nos foi enviada por ele que pela sua Sabedoria nos enviou para ajudar a suportar a dor da ausência da Nina. Eu, honestamente, já estava achando essa história toda bem esquisita. Como se não bastasse, estávamos a pensar em um nome para ela. Disse ao meu filho mais velho, Francisco (coincidência, não?), que ele escolheria o nome. Ele estava bem sentido com a perda e impactado pois foi o primeiro que viu a cachorrinha na pista, muito machucada. E travamos o seguinte diálogo:


- Fran, que nome daremos a ela?

- Hmmm... Não sei mãe, temos que dar um nome de corredora, né?

- É filho! Com certeza. Podemos pesquisar o nome das grandes corredoras mulheres, filho.

- Mãe, já sei! O nome dela pode ser Marta! A Marta, nossa jogadora de futebol, corre para caramba.

- Ótima idéia, filho. Será nossa Martinha.


Passa o dia e fui dar notícias sobre ela para a Gy, que conhecia a história da cachorrinha e no dia que fomos ao abrigo nos disse que ela estava há tempos abandonada ali na PONTE JK. Ou seja: era nossa! Nem mais precisávamos prosseguir postando fotos nas redes sociais, buscando um possível dono que a tivesse perdido.


Eis que uma pessoa, comenta e diz: - A Marta ficará muito feliz! Fiquei em choque: - Marta? Que Marta? E a pessoa me conta a história que a primeira pessoa que a viu na ponte e que estava na mobilização para conseguir um lar para ela, se chamava Marta. Meu filho ficou emocionado. Eu então, recebi a confirmação. Ela história não tinha nada de coincidência: era benção dos céus mesmo!!! E estamos aqui, cumprindo nosso papel de acolhimento para mais uma cachorrinha, enchendo-a de amor, comidinha da boa, cuidados, proteção e brincadeiras.


Oração de São Francisco pela paz

Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvidas, que eu leve a fé. Onde houver erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais: consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. E é morrendo que se vive para a vida eterna.

Amém.

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